30/07 - DIA MUNDIAL DE ENFRENTAMENTO AO TRÁFICO HUMANO

Nesta quarta-feira (30), é memorado o Dia Mundial de Enfrentamento ao Tráfico Humano. A exploração, compra e venda de pessoas não é apenas mais um dano colateral do sistema econômico atual. Seus mecanismos perversos escondem verdadeiras formas de idolatria: dinheiro, ideologia e tecnologia.  O pecado do tráfico humano é uma consequência da idolatria do dinheiro: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (Mt 6,24b).
É inaceitável ficarmos impassíveis, sabendo que existem seres humanos tratados como mercadoria! Pense-se em adoções de criança para remoção de órgãos, em mulheres enganadas e obrigadas a prostituir-se, em trabalhadores explorados, sem direitos nem voz, isso é tráfico humano!
Nos juntemos em oração por todos os que sofrem as consequências da mercantilização da vida.

Oração da Campanha da Fraternidade de 2014

Ó Deus, sempre ouvis o clamor do vosso povo
e vos compadeceis dos oprimidos e escravizados.
Fazei que experimentem a libertação da cruz
e a ressurreição de Jesus.
Nós vos pedimos pelos que sofrem
o flagelo do tráfico humano.
Convertei-nos pela força do vosso Espírito,
e tornai-nos sensíveis às dores destes nossos irmãos.
Comprometidos na superação deste mal,
vivamos como vossos filhos e filhas,
na liberdade e na paz.
Por Cristo nosso Senhor.
AMÉM!

Pai Nosso...Ave Maria...


Para baixar a Cartilha sobre Tráfico Humano produzida pela Jufra do Brasil, clique aqui.



JUVENTUDE FRANCISCANA E PASTORAIS DA JUVENTUDE DO BRASIL LANÇAM CARTA EM SOLIDARIEDADE AO POVO PALESTINO

Brasil, 28 de Julho de 2014. 

Nós, da Juventude Franciscana e das Pastorais da Juventude do Brasil, manifestamos nossa solidariedade ao povo palestino que vem sendo massacrado brutalmente pelo exército de Israel. Também reforçamos nosso repúdio a um sistema econômico desumano, em que até a indústria militar se torna um viés do mercado. É inaceitável que a Comunidade Internacional se mantenha imparcial ante a crueldade que vem acontecendo na Faixa de Gaza. O que dizer para as famílias que perderam filhos/as, pais, mães, avós, jovens e crianças nessa guerra que parece não acabar? Como Papa Francisco, que nos diz: "é preciso mais coragem para a paz do que para a guerra", trazemos uma Verdade representada pela Paz. As pessoas devem utilizar-se do amor para o crescimento de boas relações entre os países ao invés de fazer uso da guerra para levantar bandeiras de povos ou religiões. O amor pleno visa uma ruptura nas estruturas sociais embasadas no capitalismo desenfreado que almeja somente o lucro, onde ainda há opressores e oprimidos/as. Que esperança pelos/as que têm suas vidas ceifadas pela guerra nos impulsione a denunciar sempre a lógica da morte, no anúncio permanente do Projeto de Vida em plenitude! Nossa solidariedade e orações às milhares de pessoas atingidas, feridas, desabrigadas e mortas! Nosso repúdio aos senhores da guerra!
 Viva a Palestina! 

Juventude Franciscana do Brasil - JUFRA 
Pastoral da Juventude - PJ 
Pastoral da Juventude Estudantil - PJE 
Pastoral da Juventude do Meio Popular - PJMP 
Pastoral da Juventude Rural - PJR

CONVOCAÇÃO - JUFRA DO BRASIL NO PLEBISCITO CONSTITUINTE E GRITO DOS EXCLUÍDOS


Todo poder ao Povo! Por um plebiscito popular para uma Constituinte Exclusiva e Soberana
Que garanta ao povo o direito de mudar o sistema político.

Todos os brasileiros e brasileiras têm direito a um sistema político que lhes garanta representação e participação e que assegure, de fato, que demandas, desejos e problemas sejam tratados conforme as reais vontades e necessidade da maioria. Em vista disto, a sociedade civil através de movimentos, pastorais e organizações vem construindo debates e articulações sobre as reais mudanças políticas necessárias ao nosso País.

Nós, da JUFRA do Brasil, assumimos o compromisso de participarmos diretamente deste processo. Durante os meses de julho e agosto juntaremos nossas forças para que, juntos, possamos responder a seguinte pergunta: Você é a favor de uma constituinte exclusiva e soberana sobre o sistema político?

A votação será durante toda a Semana da Pátria, de 01 a 07 de Setembro de 2014. Assim, contribuiremos para mudar o sistema político e abrir caminho ao atendimento das demandas e aspirações populares defendidas pela maioria da população.

Como participaremos?

Este ano trabalharemos o Grito dos Excluídos/as em comunhão com o Plebiscito. Será uma forma concreta de fazer ouvir a voz da população excluída que não é representada pelo atual sistema político.


De que forma?

·         Acessem o blog de DHJUPIC (http://www.dhjupic.blogspot.com.br/) e clique na imagem: JUFRA DO BRASIL NO PLEBISCITO CONSTITUINTE, localizada no canto direito da página. Lá está disponível todo o material necessário, tais como: Cartilha, cartaz, jornal, contatos, capa para facebook, banners de divulgação, etc. Utilizem o material enviado a cada fraternidade durante o Congresso Extraordinário Nacional (Pedimos aos secretários/as fraternos/as regionais que não se esqueçam de repassar esses materiais a todas as fraternidades locais). Caso sua fraternidade não tenha recebido, procure o Secretário/a Fraterno/a Regional ou o Formador/a Regional.

·         Realizem reuniões nas fraternidades, nas comunidades, escolas, paróquias, associações, dentre outros.

·         Entrem em contato com os Comitês regionais para trabalharem em conjunto. Se necessário, criem um Comitê. Os contatos estão disponíveis no blog do DHJUPIC.


·          Divulguem nas redes sociais todas as informações referentes ao Plebiscito. É extremamente importante que o máximo de pessoas estejam informadas. Alterem a capa do Facebook para a fornecida no blog do DHJUPIC.

·         Mantenham-se em comunhão com toda a família JUFRA. Divulguem todas as ações feitas pela fraternidade.


Papa Francisco nos diz: “O futuro nos exige uma visão humanista da economia e uma política que logre cada vez mais e melhor a participação das pessoas, evite o elitismo e erradique a pobreza. Que a ninguém falte o necessário e se assegure a todos dignidade, fraternidade e solidariedade". Que, a exemplo de Francisco, possamos construir uma sociedade onde a vida se sobreponha aos interesses econômicos.


Fraternalmente,


  
Igor Guilherme Bastos
Subsecretário Nacional de Direitos Humanos, Justiça, Paz e Integridade da Criação.
Juventude Franciscana do Brasil


 Mayara Ingrid Sousa Lima
Secretária Fraterna Nacional
Juventude Franciscana do Brasil

EDUARDO GALEANO: "QUEM DEU A ISRAEL O DIREITO DE NEGAR TODOS OS DIREITOS?"

Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.


Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.

Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.
Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.
Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nesta operação de limpeza étnica.
E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa, adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada “comunidade internacional”, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adotam quando fazem teatro?
Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.

Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama alguma que outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinas, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antisemitas. Eles estão pagando, com sangue constante e sonoro, uma conta alheia.

Fonte: Pragmatismo Político

''O COMUNISMO NOS ROUBOU A BANDEIRA. A BANDEIRA DOS POBRES É CRISTÃ.'' ENTREVISTA COM O PAPA FRANCISCO

O encontro é em Santa Marta, à tarde. Uma rápida verificação, e um guarda suíço me faz sentar em uma pequena sala de estar.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 29-06-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Seis poltroninhas verdes de veludo um pouco desgastado, uma mesinha de madeira, um televisor daqueles antigos, com a "barriga". Tudo em perfeita ordem, o mármore polido lucidamente, alguns quadros. Poderia ser uma sala de espera paroquial, uma daquelas a que se vai para pedir um conselho ou para fazer os documentos de casamento.

Francisco entra sorrindo: "Finalmente! Eu a leio e agora a conheço". Eu coro. "Eu, ao contrário, o conheço e agora o escuto". Ele ri. Ri com gosto, o papa, como fará outras vezes no decorrer de mais de uma hora de conversa livre.

Roma, com os seus males de megalópole, a época de mudanças que enfraquecem a política; o esforço para defender o bem comum; a reapropriação por parte da Igreja dos temas da pobreza e da partilha ("Marx não inventou nada"); a desolação diante da degradação das periferias da alma, escorregadio abismo moral em que se abusa da infância, tolera-se a mendicância, o trabalho infantil e, não por último, a exploração de meninas prostitutas com menos de 15 anos. E os clientes que poderiam ser seus avós; "pedófilos": o papa os define justamente assim.

Francisco fala, explica, se interrompe, retorna. Paixão, doçura, ironia. Um fio de voz, parecem ninar as palavras. As mãos acompanham o raciocínio, entrelaça-as, solta-as, parecem desenhar geometrias invisíveis no ar. Está em ótima forma, apesar dos rumores sobre a sua saúde.

Eis a entrevista.

É a hora do jogo entre a Itália e o Uruguai. Santo Padre, por quem o senhor torce?

Ah, eu, por ninguém, de verdade. Prometi à presidente do Brasil (Dilma Rousseff) que me manteria neutro.

Comecemos por Roma?

Mas você sabe que eu não conheço Roma? Pense que eu vi a Capela Sistina pela primeira vez quando participei do conclave que elegeu Bento XVI (2005). Nunca estive nem mesmo nos museus. O fato é que, como cardeal, eu não vinha muitas vezes. Eu conheço Santa Maria Maior, porque sempre ia lá. E depois São Lourenço Fora dos Muros, onde eu fui para crismas, quando estava o padre Giacomo Tantardini. Obviamente, conheço a Praça Navona, porque sempre me hospedei na Via della Scrofa, lá atrás.

Há algo de romano no argentino Bergoglio?

Pouco ou nada. Eu sou mais piemontês, são essas as raízes da minha família de origem. No entanto, estou começando a me sentir romano. Pretendo ir visitar o território, as paróquias. Estou descobrindo pouco a pouco esta cidade. É uma metrópole belíssima, única, com os problemas das grandes metrópoles. Uma cidade pequena possui uma estrutura quase unívoca; uma metrópole, ao contrário, inclui sete ou oito cidades imaginárias, sobrepostas, em vários níveis. Também níveis culturais. Penso, por exemplo, nas tribos urbanas dos jovens. É assim em todas as metrópoles. Em novembro, faremos em Barcelona um congresso dedicado justamente à pastoral das metrópoles. Na Argentina, foram promovidos intercâmbios com o México. Descobrem-se tantas culturas cruzadas, mas não tanto por causa das migrações, mas porque se trata de territórios culturais transversais, feitos de pertencimentos próprios. Cidades nas cidades. A Igreja deve saber responder também a esse fenômeno.

Por que, desde o início, o senhor quis enfatizar tanto a função de bispo de Roma?

O primeiro serviço de Francisco é este: ser o bispo de Roma. Ele só tem todos os títulos do papa, Pastor universal, Vigário de Cristo etc., porque é bispo de Roma. É a escolha primeira. A consequência do primado de Pedro. Se, amanhã, o papa quisesse ser bispo de Tivoli, é claro que me expulsariam.

Há 40 anos, com Paulo VI, o Vicariato promoveu o congresso sobre os males da Roma. Emergiu o quadro de uma cidade em que aqueles que tinham muito levavam a melhor, e aqueles que tinha, pouco, a pior. Hoje, na sua opinião, quais são os males desta cidade?

São os das metrópoles, como Buenos Aires. Quem aumenta os benefícios, e quem é cada vez mais pobre. Eu não estava ciente do congresso sobre os males da Roma. São questões muito romanas, e eu, na época, tinha 38 anos. Sou o primeiro papa que não participou do Concílio e o primeiro que estudou teologia na pós-Concílio,, e nesse tempo, para nós, a grande luz era Paulo VI. Para mim, a Evangelii nuntiandi continua sendo um documento pastoral nunca superado.

Existe uma hierarquia de valores a ser respeitada na gestão da coisa pública?

Certamente. Proteger sempre o bem comum. A vocação para qualquer político é essa. Um conceito amplo que inclui, por exemplo, a proteção da vida humana, a sua dignidade. Paulo VI costumava dizer que a missão da política continua sendo uma das formas mais altas de caridade. Hoje, o problema da política – eu não falo só da Itália, mas de todos os países, o problema é mundial – é que ela se desvalorizou, arruinada pela corrupção, pelo fenômeno dos subornos. Lembro-me de um documento que os bispos franceses publicaram há 15 anos. Era uma carta pastoral que se intitulava "Reabilitar a política" e abordava justamente esse assunto. Se não houver serviço na base, não se pode entender nem mesmo a identidade da política.

O senhor disse que a corrupção tem cheiro de podridão. Também disse que a corrupção social é o fruto do coração doente e não só de condições externas. Não haveria corrupção sem corações corruptos. O corrupto não tem amigos, mas idiotas úteis. Pode nos explicar isso melhor?

Eu falei dois dias seguidos desse assunto, porque eu comentava a leitura da Vinha de Nabot. Gosto de falar sobre as leituras do dia. No primeiro dia, abordei a fenomenologia da corrupção; no segundo dia, de como acabam os corruptos. O corrupto não tem amigos, mas apenas cúmplices.

De acordo com o senhor, fala-se muito da corrupção porque os meios de comunicação insistem demais no assunto ou porque efetivamente se trata de um mal endêmico e grave?

Não, infelizmente, é um fenômeno mundial. Há chefes de Estado na prisão justamente por causa disso. Eu me interroguei muito e cheguei à conclusão de que muitos males crescem principalmente durante as mudanças epocais. Estamos vivendo não tanto uma época de mudanças, mas uma mudança de época. E, portanto, se trata de uma mudança de cultura. Justamente nesta fase, emergem coisas desse tipo. A mudança de época alimenta a decadência moral, não só na política, mas também na vida financeira ou social.

Os cristãos também não parecem brilhar por testemunho...

É o ambiente que facilita a corrupção. Não digo que todos sejam corruptos, mas acho que é difícil permanecer honesto na política. Falo sobre todos os lugares, não da Itália. Eu também penso em outros casos. Às vezes há pessoas que gostariam de deixar as coisas claras, mas depois se encontram em dificuldades, e é como se fossem fagocitadas por um fenômeno endêmico, em vários níveis, transversal. Não porque seja a natureza da política, mas porque, em uma mudança de época, os estímulos em direção a um certo desvio moral se tornam mais fortes.

O senhor se assusta mais com a pobreza moral ou material de uma cidade?

Ambas me assustam. Por exemplo, eu posso ajudar um faminto para que não tenha mais fome, mas, se ele perdeu o trabalho e não encontra mais um emprego, isso tem a ver com a outra pobreza. Ele não tem mais dignidade. Talvez ele pode ir à Cáritas e levar para casa uma cesta básica, mas experimenta uma pobreza gravíssima que arruína o coração. Um bispo auxiliar de Roma me contou que muitas pessoas vão ao restaurante popular e, às escondidas, cheias de vergonha, levam comida para casa. A sua dignidade progressivamente se empobreceu, vivem em um estado de prostração.

Pelas ruas consulares de Roma, veem-se menininhas de apenas 14 anos muitas vezes forçadas à se prostituir na indiferença geral, enquanto, no metrô, assiste-se à mendicância das crianças. A Igreja ainda é fermento? O senhor se sente impotente como bispo diante dessa degradação moral?

Eu sinto dor. Sinto uma enorme dor. A exploração das crianças me faz sofrer. Na Argentina também é a mesma coisa. Para alguns trabalhos manuais, são usadas as crianças porque têm as mãos menores. Mas as crianças também são exploradas sexualmente em hotéis. Uma vez, avisaram-me que, em uma rua de Buenos Aires, havia menininhas prostitutas de 12 anos. Eu me informei, e efetivamente era assim. Isso me fez mal. Mas ainda mais por ver que eram carros de alta cilindrada dirigidos por idosos que paravam. Podiam ser seus os avós. Faziam com que a menina subisse e lhe pagavam 15 pesos, que depois serviam para comprar os restos da droga, o "pacote". Para mim, essas pessoas que fazem isso às meninas são pedófilos. Isso também acontece em Roma. A Cidade Eterna, que deveria ser um farol no mundo, é espelho da degradação moral da sociedade. Acho que são problemas que são resolvidos com uma boa política social.

O que a política pode fazer?

Responder de modo claro. Por exemplo, com serviços sociais que levam as famílias a entender, acompanhando-as para sair de situações pesadas. O fenômeno indica uma deficiência de serviço social na sociedade.

Mas a Igreja está trabalhando muito...

E deve continuar a fazê-lo. Ela precisa ajudar as famílias em dificuldades, um trabalho em saída que impõe o esforço comum.

Em Roma, cada vez mais jovens não vão à igreja, não batizam os filhos, não sabem nem mesmo fazer o sinal da cruz. Que estratégia é preciso para inverter essta tendência?

A Igreja deve sair pelas ruas, buscar as pessoas, ir às casas, visitar as famílias, ir às periferias. Não ser uma Igreja que só recebe, mas que oferece.

E os párocos não devem ficar penteando as ovelhas...

(Risos) Obviamente. Estamos em um momento de missão há cerca de uma década. Devemos insistir.

O senhor se preocupa com a cultura da desnatalidade na Itália?

Acho que se deve trabalhar mais pelo bem comum da infância. Formar uma família é um compromisso. Às vezes, o salário não é suficiente, não se chega ao fim do mês. Tem-se medo de perder o trabalho ou de não poder mais pagar o aluguel. A política social não ajuda. A Itália tem uma taxa baixíssima de natalidade. Na Espanha é o mesmo. A França vai um pouco melhor, mas ela também é baixa. É como se a Europa tivesse se cansado de ser mãe, preferindo ser avó. Muito depende da crise econômica e não só de um desvio cultural marcado pelo egoísmo e pelo hedonismo. Outro dia, eu lia uma estatística sobre os critérios para as despesas da população em nível mundial. Depois da alimentação, do vestuário e dos medicamentos, três itens necessários, seguem a cosmética e as despesas com animais de estimação.

Os animais importam mais do que as crianças?

Trata-se de outro fenômeno de degradação cultural. Isso porque a relação afetiva com os animais é mais fácil, mais programável. Um animal não é livre, enquanto ter um filho é uma coisa complexa.

O Evangelho fala mais aos pobres ou aos ricos para convertê-los?

A pobreza está no centro do Evangelho. Não se pode entender o Evangelho sem entender a pobreza real, levando em conta que também existe uma pobreza belíssima do espírito: ser pobre diante de Deus, porque Deus enche você. O Evangelho se volta indistintamente aos pobres e aos ricos. Ele fala tanto de pobreza quanto de riqueza. De fato, não condena os ricos; no máximo as riquezas, quando se tornam objetos idolatrados. O deus dinheiro, o bezerro de ouro.

O senhor passa a imagem de ser um papa comunista, pauperista, populista. A revista The Economist, que lhe dedicou uma capa, afirma que o senhor fala como Lênin. O senhor se reconhece em tudo isso?

Eu digo apenas que os comunistas nos roubaram a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã. A pobreza está no centro do Evangelho. Os pobres estão no centro do Evangelho. Tomemos Mateus 25, o protocolo pelo do qual seremos julgados: tive fome, tive sede, estive na prisão, estava doente, nu. Ou olhemos para as Bem-aventuranças, outra bandeira. Os comunistas dizem que tudo isso é comunista. Sim, como não, 20 séculos depois... Então, quando eles falam, se poderia dizer a eles: mas vocês são cristãos! (risos)

Se o senhor me permite uma crítica...

Claro...

O senhor talvez fala pouco das mulheres e, quando fala, aborda o assunto apenas do ponto de vista da maternidade, da mulher esposa, da mulher mãe etc. Porém, as mulheres já lideram Estados, multinacionais, exércitos. Na Igreja, na sua opinião, que lugar as mulheres ocupam?

As mulheres são a coisa mais bela que Deus fez. A Igreja é mulher. Igreja é uma palavra feminina. Não se pode fazer teologia sem essa feminilidade. Sobre isso, você tem razão, não se fala o suficiente. Estou de acordo que é preciso trabalhar mais sobre a teologia da mulher. Eu já disse isso, e se está trabalhando nesse sentido.

O senhor não entrevê uma certa misoginia de fundo?

O fato é que a mulher foi tirada de uma costela... (ri com gosto). Estou brincando, é uma piada. Estou de acordo que se deve aprofundar mais a questão feminina, senão não se pode entender a própria Igreja.

Podemos esperar do senhor decisões históricas, tipo uma mulher como chefe de dicastério, não digo do clero...

(Risos) Bem, muitas vezes os padres acabam sob a autoridade das perpétuas...

Em agosto, o senhor vai para a Coreia. É a porta para a China? O senhor está apontando para a Ásia?

Vou ir à Ásia duas vezes em seis meses. À Coreia, em agosto, para encontrar os jovens asiáticos. Em janeiro, ao Sri Lanka e às Filipinas. A Igreja na Ásia é uma promessa. A Coreia representa muito, tem às suas costas uma história belíssima, por dois séculos não teve padres, e o catolicismo avançou graças aos leigos. Também houve mártires. Quanto à China, trata-se de um desafio cultural grande. Grandíssimo. E depois há o exemplo de Matteo Ricci, que fez tanto bem...

Aonde está indo a Igreja de Bergoglio?

Graças a Deus, eu não tenho nenhuma Igreja, eu sigo a Cristo. Não fundei nada. Do ponto de vista do estilo, não mudei de como eu era em Buenos Aires. Sim, talvez alguma coisinha, porque se deve, mas mudar na minha idade teria sido ridículo. Sobre o programa, ao contrário, eu sigo aquilo que os cardeais pediram durante as congregações gerais antes do conclave. Eu vou nessa direção. O Conselho dos oito cardeais, um organismo externo, nasce daí. Havia sido pedido para que ajudasse a reformar a Cúria. O que, aliás, não é fácil, porque se dá um passo, mas depois surge que é preciso fazer isto ou aquilo, e, se antes havia um dicastério, depois se tornam quatro. As minhas decisões são o resultado das reuniões pré-conclave. Não fiz nada sozinho.

Uma abordagem democrática...

Foram decisões dos cardeais. Eu não sei se é uma abordagem democrática, eu diria mais sinodal, mesmo que a palavra não seja apropriada para os cardeais.

O que o senhor deseja aos romanos pelos patronos São Pedro e São Paulo?

Que continuem sendo bravos. São tão simpáticos. Eu vejo isso nas audiências e quando vou às paróquias. Eu lhes desejo que não percam a alegria, a esperança, a confiança, apesar das dificuldades. O romanaccio [dialeto romano] também é bonito.

Wojtyla tinha aprendido a dizer: Volemose bene, damose da fa'. O senhor aprendeu algumas frases em romanesco?


Por enquanto, pouco. Campa e fa' campa'! (risos).

Fonte: IHU

“ONDE CHEGA O ESPÍRITO DE DEUS, TUDO RENASCE E SE TRANSFIGURA"

Uma Igreja que não surpreende é “fraca, doente e moribunda e deve ser internada para terapia intensiva”, disse o Papa Francisco, na manhã de hoje, domingo de Pentecostes, na Basílica de São Pedro, em Roma.

“ONDE CHEGA O ESPÍRITO DE DEUS, TUDO RENASCE E SE TRANSFIGURA: o evento de Pentecostes assinala o nascimento da Igreja e a sua manifestação pública. Dois traços nos chamam a atenção: uma Igreja que surpreende e causa admiração. Atenção: se a Igreja é viva sempre deve surpreender, caso contrário é fraca, doente, moribunda e precisa ser internada para terapia intensiva”, disse Bergoglio depois da oração do Regina Coeli de hoje.

“Alguns em Jerusalém – observou o Pontífice – teriam preferido que os discípulos de Jesus, bloqueados pelo medo, permanecessem fechados dentro de casa para não criar problemas. Também hoje tantos querem isto dos cristãos”. Ao contrário, “o Senhor ressuscitado os instiga para irem ao mundo: “Como o Pai me enviou, eu envio a vocês”.

“A Igreja de Pentecostes – portanto – é uma Igreja que não se resigna em ser inócua, um elemento decorativo. É uma Igreja que não hesita em sair para fora, ao encontro das pessoas, para anunciar a mensagem que lhe foi confiada, também se esta mensagem incomoda e inquieta as consciências, também se esta mensagem, talvez, lhe traga problemas e, tantas vezes, até o martírio”. A Igreja nasce una e universal, com uma identidade precisa, mas aberta, uma Igreja que abraça o mundo mas não o captura, como as colunas desta Praça: dois braços que se abrem para acolher, mas não que não se fecham para nos manter presos”.


“Nós cristãos somos livres, e a Igreja nos quer livres”, concluiu.

Fonte: IHU (Editado)

SÃO FRANCISCO E A ECOLOGIA

Nosso fundador Francisco é considerado por muitos como exemplo excepcional do cuidado cristão da criação. Em tempos de crise ecológica, cientistas, líderes religiosos de outras confissões, estudiosos, crentes comuns e também não crentes, tem citado Francisco como seu inspirador. Porque Francisco tem tanta atração?

Em primeiro lugar, podemos indicar o amor apaixonado e sensorial de Francisco por toda a criação, vista como uma obra de Deus. Seu profundo apreço pela beleza e bondade da Criação o enchia de amor e agradecimento ainda mais profundo por Deus, fonte de tal abundância de bênçãos e plenitude. Em segundo lugar, Francisco experimentou a presença de Deus na Criação. Francisco intuiu que o natural indica participar do sobrenatural. Sentiu que Deus se fez carne em Jesus Cristo e continua sendo e sempre estará encarnado no mundo. Em outras palavras, a visão da Criação de Francisco é Sacramental e Encarnada. Francisco nos oferece, portanto, uma afirmação alternativa da Criação, aquela que enfatiza na “mancha do pecado original”. Lembramos a bondade duradora e intrínseca da criação. Tanto como um fluxo de saída como o lar generativo de Deus. Este conhecimento de Francisco fez eco em João Paulo II na sua Encíclica O Evangelho da Vida (#83), na qual louva “um olhar contemplativo” de “quem não pretende apoderar-se da realidade, mas que acolhe como um Dom, descobrindo em todas as coisas o reflexo do criador e em cada pessoa a sua imagem viva.

É o cântico das criaturas a obra que melhor descreve a expressão de Francisco na sua relação com a Criação. Talvez a característica mais distintiva seja o contato que tem com os elementos da criação chamando-os de “irmão” ou “irmã”, revelando a profunda conexão que Francisco sentiu com o mundo criado. Deleitava-se com o sol, contemplava as estrelas, dançava com o ar, dialogava com o fogo, provou das maravilhas da água e acariciou a terra. O cântico é uma celebração do amor de Deus que se manifesta em toda a criação e ao mesmo tempo espelha os louvores da criação. Isto dá a conhecer o reconhecimento de Francisco com a criação e como uma expressão de amor generoso de Deus. Todas as coisas criadas são sinal e revelação (sacramento) do Criador, que deixa uma marca divina em toda parte. Como tal, a criação tem um valor intrínseco, não pelo seu valor material ou instrumental para os seres humanos, mas pelo fato de ter sido criada por Deus. Esta é a verdadeira sabedoria ecológica. Além disso, o Cântico não pode ser entendido separado do amor de Francisco por Jesus Cristo e a sua devoção pela Encarnação e a paixão. A humildade de Deus que o levou a entrar na Criação tem enobrecido infinitamente toda criação.

Em terceiro lugar, Francisco modelou um caminho para ação contemplativa. Sua devoção por partilhar a dor dos marginalizados, como por exemplo, com o leproso, o levava a agir com compaixão. Ele intermediava e encarnava o amor permanente de Deus para com Cristo ressuscitado sempre presente, ainda escondido nos desprezados e marginalizados. O compromisso de Francisco em viver a Boa Nova de Jesus Cristo, unido a seu apaixonado amor pela criação, deu origem a uma convincente consciência religiosa e ecológica que o tem vinculado a justiça social com a justiça ecológica. Francisco não só se esforçou pelas relações justas entre os seres humanos, mas também pelas relações justas com as demais criaturas e com a própria terra (inclusive até o ponto de “obedecer.... a cada criatura e a cada animal selvagem” (Saudação às virtudes, 14). A visão e a vida de Francisco continuam sendo testemunhas perenes de uma sabedoria ecológica que os seres humanos, individual e coletivamente, podem viver uma vida boa em relação fraterna entre si e com a terra. Se entende que seu testemunho espiritual e ecológico pode unir a todas as pessoas de boa vontade, para que juntos possam participar em atividades mais amplas para criar uma sociedade (dando assim respostas ao “grito da terra”) mais sustentável.

Retirado de: http://francis35.org/pdf/35_final.pt.pdf

AUMENTE SUA VOZ E NÃO O NÍVEL DO MAR

Barbados é um pequeno país insular situado no Caribe e com área e população semelhantes à cidade de Limeira, no interior paulista. Mesmo com dimensões pequenas, Barbados planeja aumentar para 29% a cota de energias renováveis no consumo elétrico da população. Por conta disso, o local será sede das celebrações globais do Dia Mundial do Meio Ambiente, festejado todo dia 5 de junho. O tema deste ano é “Aumente sua voz, não o nível do mar” e aborda os desafios enfrentados pelas pequenas ilhas com relação às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento da Terra.

Porém, dados alarmantes indicam que a preocupação não deve ser apenas de quem vive em ilhas oceânicas, mas sim de todo o mundo. Aqui no Brasil, por exemplo, 90% da população afirma reconhecer problemas ambientais (de acordo com o levantamento do Ministério do Meio Ambiente), mas nem a metade pratica ações simples para contribuir pela redução de poluentes no planeta, como a separação de resíduos sólidos em casa.

Há diversas práticas sustentáveis simples que podem ser adotadas por todas as pessoas. Além da separação do lixo, é possível economizar água e energia elétrica apenas com a mudança de pequenos hábitos, como o banho, a lavagem de roupas e louças, ou ainda o desligamento de aparelhos elétricos da tomada. No ambiente corporativo, as empresas podem estimular colaboradores para evitar aumento no consumo de papel e energia elétrica. O uso de bicicletas na mobilidade urbana também é uma importante ferramenta na diminuição de poluentes.

O engajamento imaginado pelo lema deste ano nas questões climáticas é um desafio antigo da ONU quando o assunto é sustentabilidade e problemas ambientais. A criação do Dia Mundial é um exemplo de alerta para essas questões. A data foi instituída em 1972, em comemoração à abertura da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo (Suécia), quando foi desenvolvido o Programa das Nações Unidas para a área. O objetivo era justamente transformar as pessoas em agentes de transformação ambiental.

Quarenta e dois anos se passaram, mas apenas recentemente o conceito começa a ganhar força na agenda pública da maioria dos países. Entretanto, muito tempo foi perdido: pesquisas mostram que a emissão de dióxido de carbono no planeta pulou de 330 para 400 partes por milhão (ppm) em trinta anos. Isso ajudou na redução de 40% da camada de gelo que cobre o Oceano Ártico e na perda de 30% da biodiversidade mundial no mesmo período.

Chegou a hora da sustentabilidade deixar de ser mero discurso e entrar de vez em atitudes cotidianas! Nós podemos evitar que o planeta Terra continue caminhando para um futuro cada vez mais incerto, ou até que ele chegue a parar de caminhar.

Fonte: Meio Ambiente